CAPÍTULO 2: O Estilhaço
A sirene ainda berrava ao longe quando o famigerado Estilhaço arrebentou a última vitrine da joalheria com seu martelo elétrico improvisado. Diamantes saltavam no ar como confetes brilhantes. Ele os apanhava com pressa, socando-os na mochila como se fosse um dia normal de trabalho.
Estava prestes a correr para a saída quando o teto explodiu em luz e purpurina.
Com um salto dramático e aterrissagem em três pontos — com direito a brisa artificial jogando a capa para trás — surgiu ele: **Capitão Estética**, o herói mais fashionista da cidade.
A lycra colada cintilava sob os refletores de emergência. O topete esculpido com precisão cirúrgica nem se moveu no impacto. Ele se ergueu devagar, numa pose de editorial de moda, uma sobrancelha arqueada com indignação contida.
— *Alto lá, malfeitor!* — bradou, com voz de comercial de perfume caro. — *Os diamantes que você roubou pertencem às beldades desta cidade! São acessórios sagrados, destinados a realçar a beleza natural! O que você fez é um crime contra a estética!*
Estilhaço congelou, meio sem fôlego.
— C-Capitão Estética?! Mas... mas eu só roubei das vitrines! Nem encostei nas clientes!
O herói desceu da pose como se descesse de uma passarela em Milão. Andou com passos longos, precisos, medidos ao ritmo da trilha sonora imaginária que provavelmente tocava na sua cabeça.
— *Tanto faz.* — disse, olhando com nojo para a mochila do ladrão. — *A mera presença dessas pedras preciosas em suas mãos… sujas… é uma afronta à harmonia visual do mundo.*
Ele ergue um dedo em riste.
— *Prepare-se para—*
**ZzzzTTT!**
Um jato prateado e brilhante cruzou o ar, vindo da pistola de cola do Estilhaço. O projétil grudou bem no meio do topete do herói. A gosma escorreu lentamente, como se o tempo estivesse em câmera lenta.
Capitão Estética congelou. O mundo congelou com ele.
— *O... que... você... fez...?* — murmurou, tocando o cabelo como se tocasse o próprio coração.
— Eu... eu só acertei seu cabelo! — respondeu Estilhaço, recuando. — Não dói, né? É só cola...
— *Só cola?!* — o herói arfava. — *SÓ COLA?!*
Ele tropeçou para trás, apavorado.
— *Você... destruiu uma obra-prima! Levei quarenta e cinco minutos com ogel profissional e modelagem digital espelhada! E se alguém viu? E se alguém filmou?! Se isso vai parar no YouTube? No Instagram?*
Capitão Estética correu em desespero até o reflexo de uma janela de escritório próxima, analisando a gosma em sua coroa de vaidade.
— *Desastre... catástrofe capilar... tragédia estética...* — murmurava, sacando do cinto um **kit de emergência** completo com pente de titânio, spray fixador de última geração e uma mini-prancha de cerâmica.
Ajoelhou-se, ainda de costas para o criminoso, e começou os reparos.
— *Ninguém leva a sério um herói com um cabelo assim... Ninguém...*
Estilhaço observava, mochila pendurada, pistola na mão, mas agora com expressão mais... compreensiva.
— Olha... se quiser eu espero você terminar aí. A gente continua depois, pode ser?
Capitão Estética não respondeu. Estava ocupado demais ajeitando a simetria lateral do topete.
E assim, naquela noite, o crime venceu a justiça — mas a estética... essa teve uma noite ainda pior.