Herois · Capítulo 1

CAPÍTULO 1: Os Heróis existem

O beco era estreito, abafado e cheirava a mofo e urina. A única luz vinha de um poste quebrado, piscando intermitente como um olho nervoso. A moça recuava, pressionada contra a parede fria de tijolos, enquanto o vulto do assaltante se aproximava com uma navalha na mão e um sorriso de canto de boca.


— Vai, passa tudo. Rápido, antes que eu perca a paciência.


Ela tremia. As mãos buscavam o zíper da bolsa quando uma sombra maior surgiu no beco. A capa esvoaçava, as botas brilhavam sob o poste e o colante de lycra marcava exageradamente músculos que provavelmente vinham mais de espuma do que de academia.


O assaltante arregalou os olhos.


— Caralho... é o Defensor!


A mulher suspirou, alívio e descrença num só gesto.


— Graças a Deus!


Mas o Defensor não se moveu. Ficou parado por um instante, observando a cena como quem encara uma vitrine. Depois, sem uma palavra, virou-se de costas e começou a caminhar de volta para a saída do beco.


— Espera! — gritou a mulher, ainda trêmula. — Não vai me salvar? Você é um herói da cidade, não é? Não devia impedir um assalto?


Ele parou por um segundo. Respirou fundo, como se cansado da própria existência, e então se virou.


— Olha, moça… você tá certa. Eu sou um herói. Mas não sou qualquer herói.


— Como assim?


— Eu sou o Defensor das Mulheres Bonitas. E, bem... você não é bonita o suficiente.


Disse isso com um sorriso constrangido, como quem explica por que não dá esmola no sinal. Então girou nos calcanhares e desapareceu nas sombras, deixando apenas o som de suas botas se afastando.


A mulher ficou paralisada por um momento. Depois, virou os olhos para o céu como se pedisse explicações a algum deus ausente.


— Ei! Espera! Volta aqui! Isso é um assalto!


Mas ele já tinha ido embora.


Atrás dela, o assaltante coçou a cabeça, visivelmente aliviado.


— Ufa, achei que hoje eu ia pro hospital. Mas parece que a beleza salvou você... de ser salva.


Ela se virou devagar, voltando à parede, o rosto resignado.


— Onde estávamos? — perguntou ela, cansada.


— Você tava prestes a chorar, entregar seu relógio, celular... e implorar pra eu não levar sua aliança. Aquela que ganhou do marido.


Ela suspirou e tirou o anel do dedo com um gesto lento.


— É, acho que agora posso continuar de onde paramos.

O assaltante já sorria enquanto encaixava o celular no bolso e girava a aliança da vítima entre os dedos, avaliando mentalmente o que renderia mais no mercado paralelo.


Foi quando a sombra voltou.


Capa esvoaçando, botas tilintando no chão molhado do beco, o vulto voltou do nada, vindo pela mesma direção de antes.


O assaltante deu um passo atrás, instintivamente alarmado. Mas ao reconhecer melhor, relaxou.


— Ah, é você. Por um momento achei que teria problemas. Mas o Defensor das Mulheres Bonitas... não tem nada pra fazer aqui. Esqueceu algo?


A figura se aproximou mais, revelando o rosto parcialmente coberto por uma máscara de tecido barato, o colante de lycra idêntico ao do herói anterior, embora amarrotado e com uma discreta mancha de ketchup no ombro.


— Você tá certo, delinquente — disse o homem, voz nasal e empolgada. — Eu sou o Defensor. Mas tá errado também. Sou o Defensor das Barangas. E você tá com problema, sim, porque eu não vou deixar você machucar essa pobre baranga indefesa.


A mulher ficou paralisada por um instante. Depois, lançou a bolsa com força na cara do herói.


— Como é que é?!


— Eu disse que—


— —Baranga?! Olha aqui, se você é defensor de barangas, me recuso a ser salva por você! Vai procurar uma baranga de verdade pra proteger, e nos deixe terminar isso logo! Quero ir pra casa, tenho um marido pra cuidar!


O herói recuou com a bolsa ainda pendurada no pescoço, tentando se recompor.


— Como assim você não quer ser salva? Olha, barangas como você não têm muita opção de herói, tá? Devia agradecer por eu estar aqui!


— Agradecer?! — gritou ela, já tirando os sapatos de salto e os lançando um a um contra o sujeito. — Prefiro ser assaltada do que ser salva por um herói desses! Você tá me atrasando, o assalto já devia ter acabado!


O herói tentava se esquivar entre tapas e sapatos.


— Mas e se... se depois de te assaltar esse delinquente decidir abusar de você?


Foi quando o próprio assaltante interveio, ofendido.


— Ei! Como é que é?


Ele atirou o relógio recém-roubado na cabeça do herói.


— Você acha mesmo que eu me interessaria por ela? Isso é ofensivo! Barangas assim eu não pego nem que elas implorem! Tenho meus padrões, cara! Sou um assaltante com dignidade, tá?


— Ué, então... — o herói hesitou.


— —Vai embora! — gritaram os dois em uníssono.


Mais alguns xingamentos e uma laranja podre jogada de alguma janela acima selaram o destino do herói. Ele saiu do beco cabisbaixo, tropeçando na própria capa manchada, murmurando para si mesmo sobre a falta de reconhecimento.


A mulher pegou de volta o que restava da bolsa. O assaltante ajeitou a camisa.


— Bom... onde a gente tava?


— Eu ia chorar enquanto entregava o último brinco e pedia pra você não levar meu batom.


— Perfeito. Então vamos terminar com classe. Depois disso, cada um pra sua casa.


E assim foi. O assalto acabou, cada um seguiu seu caminho, e ninguém falou mais do Defensor das Barangas naquela noite.


Exceto o próprio, que anotou tudo num caderninho surrado com capa escrito em glitter: “Missões Heroicas – Ainda Vale a Pena.”

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