Ossos do oficio

O assassino se lançou sobre a vítima encurralada contra a parede, a adaga apontando direta para a jugular. Agora não tinha erro, a vítima não tinha como escapar: mais um nome em sua lista, ele pensou com um sorrisinho maligno e satisfeito no canto da boca.

Mas, repentinamente, o rosto aterrorizado da vítima se desfez, assumindo uma expressão de calma e indignação.

— Parou, parou, parou! — a vítima repetiu a palavra várias vezes, como para dar ênfase ou sentido de urgência à ordem.

O assassino ficou confuso. O que levava a vítima a pensar que podia simplesmente interromper um assassinato apenas mandando parar? Mas ele começou a sentir uma certa curiosidade, uma irresistível curiosidade. E então, com a adaga já a poucos centímetros do pescoço da vítima, ele parou. Precisava saber.

— O que que foi agora? — perguntou ele. — Sou um assassino, estou no meio de um assassinato e você é a vítima. O que te faz pensar que pode me mandar parar?

A indignação na voz dele era verdadeira. Ele era um assassino implacável, e o outro, uma vítima indefesa. O que ele achava que lhe dava a autoridade de interrompê-lo?

— Tá legal, seu "assassino implacável" — começou a vítima indefesa. — Olha bem para aquele rosto. — Ele apontou para outro garoto num canto da sala escura. — Você não lembra dele não?

O assassino olhou para o garoto demoradamente, rebuscando em suas lembranças traços de familiaridade.

— De fato, ele não me é estranho mesmo — concordou.

— É porque ele estava em todos os seus outros massacres — afirmou a vítima da vez, com convicção.

O assassino olhou com mais cuidado ainda, numa observação detalhada das feições do outro jovem.

— Hummm... você tem razão. Ele estava mesmo.

— E você não acha estranho? Você é implacável com todas as suas vítimas, sempre rápido e certeiro, ninguém escapa. Mas, em todas as vezes que tentou com ele, você tropeçou em móveis, escorregou em pisos lisos, objetos aleatórios caíram sobre você... e ele sempre escapou!

O assassino olhou para o garoto novamente. Puxou todas as memórias que tinha envolvendo aquele rosto, revisitando várias vezes as mesmas cenas.

— Porra! E não é que você tem razão? Ele sempre escapa! E pior: ele sempre salva a garota mais bonita, e sempre que ele está, tem uma garota bonita junto.

O assassino, então, deixou a vítima original esquecida por um momento e se dirigiu ao outro garoto.

— Então, garoto... como você explica sempre escapar e sempre salvar a moça bonita? E mais: como explica sempre ter uma moça bonita quando tento te matar?

— Desculpa, seu assassino — começou o garoto a se explicar, calmamente, como quem resolve um problema de matemática. — Eu não faço por querer, eu juro. Mas eu sou o garoto inseguro e tímido, personagem principal da história. O autor precisa que eu fique vivo, por isso eu escapo e mais ninguém consegue.

O assassino piscou, a adaga pendendo frouxa em sua mão. Ele olhou para a própria arma manchada de sangue cenográfico, depois para as roupas pretas cheias de fivelas e bolsos inúteis que usava.

— Então... eu sou só um degrau? Um obstáculo genérico pro seu arco de amadurecimento? — A voz do assassino tremia, misturando ofensa pessoal com uma súbita crise existencial.

O protagonista encolheu os ombros, ajeitando os óculos no rosto (que, claro, magicamente não tinham um único arranhão, garantindo seu charme nerd).

— Praticamente. Daqui a uns dois capítulos você vai fazer um monólogo longo demais revelando seu plano maligno, eu vou encontrar uma falha óbvia na sua lógica, a garota bonita vai te distrair e eu vou te derrotar usando a "força da amizade" ou algum extintor de incêndio que, convenientemente, estava solto na parede.

A primeira vítima, aquela que estava prestes a ter a jugular perfurada minutos atrás, limpou a garganta.

— Viu só? É sacanagem! — disse, cruzando os braços e saindo de encosto da parede. — Eu tô aqui pra ser o "melhor amigo engraçado" ou só a "vítima para estabelecer o tom sombrio da trama". Minha morte de hoje só ia servir pra dar peso emocional pra ele virar herói! E eu nem ganho adicional de periculosidade!

O assassino guardou a adaga lentamente. A expressão maligna sumiu do seu rosto por completo, dando lugar a uma carranca de puro cansaço trabalhista.

— Quer saber? Não. Me recuso. — O assassino caminhou até uma poltrona empoeirada no centro da sala escura e se jogou nela, cruzando as pernas. — Eu treino parkour há cinco anos. Eu afio essas adagas toda noite com pedra de amolar suíça. Para ser derrotado porque "tropecei num tapete persa"? Que roteiro preguiçoso do caramba.

O protagonista começou a suar frio, olhando em volta, de repente nervoso.

— Ei, o que você tá fazendo? A garota bonita vai chegar a qualquer momento para buscar um livro perdido. Você precisa estar me enforcando para ela gritar e eu ter um pico de adrenalina! O arco dramático depende disso!

— Que ela grite com o Sindicato dos Vilões — resmungou o assassino, tirando um smartphone do bolso tático e abrindo um aplicativo de delivery. — Eu vou pedir uma pizza e mudar de gênero literário. A partir de hoje, isso aqui é uma comédia de cotidiano. O que vocês querem na metade da calabresa? Eu pago, o orçamento do departamento de vilania sobrou esse mês.

O aplicativo de delivery recém tinha confirmado o pedido da pizza meio a meio quando a pesada porta de carvalho da sala escura rangeu.

De repente, a iluminação do ambiente mudou. A luz fria e sombria que entrava pelas frestas deu lugar a um brilho quente, quase dourado, focado perfeitamente na entrada. Uma brisa suave — absolutamente inexplicável, considerando que não havia janelas abertas — esvoaçou os cabelos perfeitamente escovados da garota que acabou de cruzar a soleira.

Ela vestia uma blusinha branca impecável e sapatos claros, o tipo de roupa que qualquer pessoa com instinto de sobrevivência básico evitaria usar em um covil abandonado e cheio de poeira.

— Tem alguém aí? — a voz dela soou melodiosa, como se estivesse gravando um comercial de shampoo, e não entrando na cena de um crime iminente. — Eu acho que deixei cair meu brilho labial de morango aqui perto das correntes de tortura...

No mesmo instante, o protagonista tímido soltou um guincho estrangulado. O rosto dele assumiu uma coloração vermelho-pimentão e ele deu um passo para trás, tropeçando no próprio cadarço (que nem estava desamarrado). Ele tentou se apoiar na parede, esbarrou no ombro dela por um milissegundo e, como se tivesse levado um choque de duzentos volts, hiperventilou, escorregando até o chão quase em pré-síncope.

— C-C-Camila?! O-o que você faz aqui?! — ele gaguejou, agarrando o peito enquanto evitava olhar diretamente para os olhos dela, focando fixamente numa teia de aranha no teto.

A primeira vítima, ainda encostada na parede, apontou para a porta, incrédulo.

— Cara, de onde veio aquele vento? E essa luz nela? O diretor de fotografia tá escondido ali atrás da porta?

O assassino apenas suspirou, bloqueando a tela do celular.

— É a aura de "interesse amoroso". Vem no pacote do roteiro. — Ele se levantou espreguiçando-se e acenou para a garota. — E aí, Camila. Beleza? Cuidado onde pisa, o chão tá meio sujo de sangue falso.

Camila piscou, os cílios longos batendo em confusão. Ela olhou para o assassino, depois para o protagonista quase desmaiado no canto, e fez uma pose clássica de donzela em perigo, levando as duas mãos ao rosto.

— Oh, não! Um assassino terrível! Você vai me fazer de refém e rir maleficamente enquanto ameaça minha vida? — Ela disse isso com a entonação de quem lê uma receita de bolo, caminhando na direção do assassino e se posicionando de forma muito conveniente para ser agarrada pelo pescoço. — Por favor, me solte! Oh, quem poderá me salvar?

Ela lançou um olhar esperançoso e perfeitamente iluminado para o protagonista tímido.

O garoto deu um suspiro fraco no chão. — E-eu... eu vou... ah, meu Deus, ela olhou pra mim... — E sua cabeça tombou para o lado, vencido pela timidez aguda antes mesmo da luta começar.

O assassino cruzou os braços e balançou a cabeça.

— Olha, Camila, eu não vou te fazer de refém hoje. A produção cortou minha verba de motivação. Acabei de pedir uma pizza de calabresa com queijo. Você come borda recheada?

A pose de donzela em perigo desmoronou na hora. Camila abaixou as mãos e sua expressão mudou para um aborrecimento genuíno.

— Como assim não vai me fazer de refém? — Ela botou as mãos na cintura. — Eu passei quarenta minutos na maquiagem fazendo esse suor falso que brilha estrategicamente! Eu tenho uma cota de três gritos agudos por capítulo! O que eu faço com o meu arco narrativo de ser salva no último segundo e abraçar o nerd gaguejante?!

— Senta ali na poltrona e espera o entregador do iFood — sugeriu o assassino, puxando uma cadeira de madeira velha para si. — E vê se joga uma água no rosto do herói, o coitado capotou de verdade só porque encostou no seu braço.

A primeira vítima deu uma risadinha, puxando um baralho de dentro do casaco. — Alguém afim de um truco até a comida chegar? O protagonista não joga, a mão dele sua demais e estraga as cartas.

A primeira vítima, que já estava relaxando os ombros, suspirou e cortou o clima de folga.

— Sabe de uma coisa? — disse ele, encarando o assassino. — A gente não tem escolha. Isso é uma história. Quem decide tudo é o autor. Se ele escreveu que você é o vilão e vai tentar matar todo mundo, você vai tentar. É o roteiro, cara. Não dá para a gente simplesmente cruzar os braços e pedir uma pizza.

O assassino parou. Olhou para o teto escuro, depois para a própria faca manchada de sangue cenográfico. Um suspiro cansado e resignado escapou de seus lábios.

— É... Você tem um excelente ponto — concordou o assassino, dando de ombros. — Fazer o quê, né? Ossos do ofício.

Num piscar de olhos, a realidade da cena se reiniciou. Com a velocidade de um predador, o assassino voltou à exata posição em que estava antes: a adaga pressionada contra a jugular da primeira vítima. O rapaz arregalou os olhos, percebendo, um segundo tarde demais, que sua reflexão filosófica tinha acabado de assinar sua sentença de morte.

Slash. A vítima tombou no chão com uma última expressão que dizia, inegavelmente: "Eu devia ter ficado calado".

O assassino não perdeu tempo. Limpou a lâmina na calça tática e se virou para a garota bonitona. Deveria ser o alvo mais fácil do mundo. O vestido dela era tão justo que mal permitia que respirasse, e os saltos agulha eram um atalho direto para uma torção no tornozelo. Ele se lançou na direção dela com um rugido feroz.

Mas, no meio do caminho, o pé do assassino enroscou em algo maciço. Ele tropeçou feio e esparramou-se no chão. Olhou para trás, indignado. Era um gigantesco lustre de cristal antigo. Ninguém tinha visto aquilo cair. Na verdade, olhando para cima, o teto de cimento sequer tinha fiação para um lustre daqueles!

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